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A Modernidade e Charles Baudelaire: Uma breve abordagem Benjaminiana

Por:   •  26/12/2018  •  3.781 Palavras (16 Páginas)  •  31 Visualizações

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O flanêur representa magistralmente a figura do indivíduo que se deixa embriagar pelas multidões, dissolve-se no anonimato das grandes avenidas, que observa e percebe o novo nas mesmas coisas, bem como a figura do conspirador revolucionário, que pela ótica Benjaminiana, nada mais é do que a representação da falta da consciência dos acontecimentos, um “desengajado político”, portanto, ao invés de traçar um objetivo político de destruição do cenário social vigente, o poeta é associado à imagem dos conspiradores[3].

O poeta, sendo, portanto, o flanêur, evita a todo custo a monotonia da própria casa, local que poderia levá-lo à falsa sensação de tranquilidade, acarretando, por assim dizer, a não conscientização de que tanto necessitava, disponibilizando-se aos choques com a multidão tal qual um esgrimista:

Reconhecer sob a imagem da esgrima o trabalho que Baudelaire dedicava aos seus poemas significa aprender a vê-los como uma série ininterrupta das mais pequenas improvisações (BENJAMIN, p. 70, 1989)

Ou seja, o poeta não tem como finalidade entender o funcionamento dessa sociedade fragmentada e veloz, mas sim, a enfrentá-la em todo o seu bestialismo, pois, nela, tudo está fadado ao perecimento, no entanto, ao encará-la, o poeta busca extrair algo de eterno no efêmero, porém, segundo Benjamin com sua perspectiva marxista, essa atitude de Baudelaire o transformava em um falso herói, pois o poeta não estaria lutando por nenhuma causa elevada[4], dessa forma, a atitude revolucionária do poeta seria a recusa a uma vida falsamente cômoda, bem ao gosto burguês, e também, a desconstrução dos valores dessa classe econômica que alcançou seu auge na Paris da época de Baudelaire.

Outro ponto de extrema importância na análise Benjaminiana, diz respeito a alegorização da cidade de Paris empreendida pela poesia de Baudelaire através de dois caminhos, a saber, a interpretação da reestruturação urbana empreendida na cidade, tema que foi tratado anteriormente, bem como a imagem onírica da cidade em seus moradores. Ou seja, há uma construção dupla na alegorização da cidade, uma de natureza material, e outra, de natureza onírica ambas tendo como regente a questão da transitoriedade dos elementos da metrópole – a interpenetração entre elementos da Paris antiga e da Paris moderna, tão visíveis no poema O Cisne, onde temos claramente a fusão de princípios antigos com modernos, tendo Paris como o palco de todas essas transformações, a cidade torna-se, portanto, uma alegoria de todas essas transformações, a temporalidade destrutiva da modernidade.

A capital francesa segundo Benjamin, é o local do culto ao capitalismo, o lugar das passagens, das rápidas transformações tecnológicas, da arquitetura, da moda, ou seja, constructos que correspondiam à evolução plena da concepção de fetiche e de progresso. Toda essa célere e constante transformação da cidade traz a questão da transitoriedade que se fez eminente através da relação da permanência de elementos antigos e o surgimento constante da novidade nos mostra, segundo Benjamin, o caráter mutante na estrutura material da cidade, tornando-se, assim, estranha e desumana para o seu próprio habitante.

A questão da modernidade e da antiguidade da cidade é alegorizada de forma magistral n’O Cisne em que temos a transitoriedade de estruturas orgânicas e inorgânicas, tudo muda em velocidade absurda, tanto a cidade como as alegorias da Paris fragilizada nas imagens de Andrômaca, do cisne e da negra, ou seja, símbolos históricos e de criaturas vivas[5] que, em suma, não têm mais lugar na sociedade moderna marcadamente excludente.

Por conseguinte, nessa primeira parte de nossa análise, concluímos através de uma sucinta análise a posição de Walter Benjamin em relação a Charles Baudelaire, de que o poeta francês traz em seus poemas as marcas da modernidade, portanto, a fragmentação, a ironia, a efemeridade, os relacionamentos rápidos e superficiais, a melancolia como rememoração de um tempo perdido, portanto, o poeta sente a perda daquilo que Benjamin chama de a experiência plena. Na análise Benjaminiana a melancolia do poeta se dá muitas vezes pelo sentimento de perda em relação ao passado, sentimentos que são expressos majoritariamente pelo sentimento da ironia e da melancolia. Baudelaire colecionou as sensações e denunciou de maneira alegórica os escombros e as ruínas gerados no século XIX a partir das mudanças econômicas e dos modos de produção modernos alegorizadas na Paris de seu tempo.

Jean Starobinski e Dolf Oehler: Leituras sobre o poema O Cisne, de Charles Baudelaire

Tivemos até aqui uma noção do cenário parisiense na época de Baudelaire, em suma, a literatura urbana permeada com suas questões, como por exemplo, o tráfego, a multidão, os edifícios etc., elementos que revelam as formas de beleza bem como as monstruosidades criadas pela modernização, portanto, a quebra no homem de suas tradições e crenças e o surgimento de uma nova organização social – a capitalista.

Passaremos agora para outro estágio do nosso estudo, em que entrecruzaremos duas análises do poema O Cisne, publicado na emblemática obra As Flores do Mal, na qual Baudelaire apreende a realidade concreta, sintetizando a Paris do século XIX, “A velha Paris não existe mais”. Numa postura realista, o poeta mostra como essa mudança radical ocorrida na cidade atinge sua sensibilidade, percebendo a passagem do tempo, empreendendo rememorações não só de Paris, mas também a referência à idade de Ouro clássica com a menção à personagem Andrômaca, da mitologia grega, o poeta Ovídio, bem como reflexões através de imagens do quotidiano, no entanto, não analisaremos o poema, e sim, sua fortuna crítica nos escritos de Jean Starobinski e Dolf Oehler.

O teórico da literatura Jean Starobinski começa sua análise poética a partir da questão da melancolia, que parecia ser parte integrante da vida do crítico da modernidade, tendo como fio condutor a escrita de Baudelaire que descreveu com maestria a vida moderna. Starobinski inicia sua crítica pelo viés da condição humana usando a obra do poeta francês como ponto de partida ou um expediente, assim sendo, o teórico suíço desvela a subjetividade do ser humano, e, dessa forma, sua análise vai além da arte de Baudelaire.

Starobinski traz até os leitores os sentimentos do poeta francês, desde a melancolia até a aflição do vazio existencial refletida n’O Cisne, todavia, não somente uma análise literária, mas sim, fazendo com que o leitor perceba esses males como cada vez mais presentes na vida do homem comum, ou seja,

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