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BREVE ANÁLISE SOBRE A PRESENÇA AFRO-BRASILEIRA NO MERCADO EDITORIAL

Por:   •  2/11/2017  •  2.864 Palavras (12 Páginas)  •  167 Visualizações

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Porém, ao refletir um pouco mais sobre o que viria a ser esse “estilo genuinamente brasileiro” de editar e comercializar livros, percebi que, ao invés de plural, tal como o nosso país, ele era singular. Quando analisa-se um pouco mais sobre o processo de escolha dos títulos publicados, por exemplo, nota-se o quão ferida é a diversidade e o pluralismo dos grupos raciais que constituem o país. Privilegia-se, na maior parte dos casos, o grupo hegemônico representado pela tríade capitalista, patriarcal e branca.

Este texto está dividido em quatro momentos. No primeiro, apresenta-se brevemente a temática da cultura africana e afro-brasileira na literatura nacional; no segundo momento são expostos os pontos gerais da representação do negro nas obras literárias publicadas; no terceiro, as formas de veiculação do material afro e o papel dos coletivos literários nessa distribuição; e, no quarto momento, tem-se a análise e a problematização do tema escolhido.

- A Literatura Negra

Ainda hoje, o povo negro enfrenta problemas presentes desde o período da colonização do país: a exclusão e a falta de reconhecimento – o que acaba por relegar esses indivíduos, muitas vezes, à marginalidade. E isso não é diferente quando falamos em literatura negra. Só quando estuda-se de modo mais profundo a história da comunidade afrodescendente no Brasil e seus desdobramentos no mercado editorial nacional é que é possível notar a pouca importância com que a temática é vista nas rodas de conversa intelectuais e, ainda, no ambiente acadêmico. A falta de definições para o termo, o viés oral da cultura africana e até mesmo o preconceito racial ainda hoje existente podem ser possíveis explicações para a ausência de estudos sobre esse campo minoritário.

É necessário, porém, desmistificar esses e outros panoramas comumente associados ao tema. A “afrobrasilidade” da literatura não está na cor de quem escreve ou sobre os personagens na obra representados – principalmente quando o tema for escravidão. É a partir desse ponto de vista que Silva (2009) afirma ser possível negar a figura de ícones da literatura brasileira como autores de uma linha afro, apesar de pele escura ou da utilização do negro como tema e personagem principal da obra. Segundo o autor, nesse tipo de livro, não se reconhece o compromisso com as características de uma narrativa afro-brasileira autêntica.

II.I Literatura sobre o negro e literatura afro-brasileira

Quando fala-se em literatura afro-brasileira, é comum confundi-la com o tema de algum livro, por exemplo. Porém, muitas das vezes, os livros que tratam do assunto acabam carregando estereótipos impregnados de racismo e/ou preconceito, criados por uma elite minoritária, mas hegemônica. Isso acaba por reforçar estigmas velados causados pela escravidão e opressão secular à qual foi submetido esse grupo racial.

É nesse sentido que Proença Filho (2004) lembra a necessidade de engajamento que os autores devem ter com esse tipo de literatura; afinal, há uma imensa quantidade de livros conhecidíssimos sobre negros, mas não propriamente escrito por negros. Desse modo, seria possível negar a figura de grandes nomes da literatura brasileira como representantes de um estilo afro, distinguindo-se, assim, o que é literatura afro-brasileira e o que é literatura sobre o negro no Brasil.

II.II Anos 1970: efervescência do movimento negro

Uma vez que, sob a análise aqui adotada, grandes nomes da literatura brasileira que escreveram sobre os negros ou, de fato tinham a tez mais escura não se enquadram nos estudos sobre Literatura Negra, torna-se importante contextualizar o momento em que autores do movimento negro passam a ter força literária expressiva no país.

Ao fim da década de 1970, durante as rearticulações dos movimentos sociais, a primeira geração de negros escritores surgia para afirmar a literatura afro-brasileira. Em plena ditadura militar (na época, comandada por Ernesto Geisel), a efervescência dos movimentos sociais negros espalhados por diversas cidades do país fez com que esses escritores passassem a atuar em coletivos, publicar seus livros antologias, séries ou edições. A intensa comunicação entre esses autores promovia reuniões, trocas de textos, entre outros, gerando publicações coletivas e antologias poéticas de contos. Era o enfrentamento ao mercado editorial brasileiro que se recusava a lançar livros com essa temática, que denunciava a discriminação aos negros e desmascarava a estabilidade da democracia racial (Riso, 2014).

III. O negro na literatura

Nos noticiários, ao negro ainda são impostas determinadas posições sociais que dificilmente escapam das páginas policiais, luxúria (mulher negra, mulatas) e virilidade (homens negros). Nos livros, o pensamento cultural negro ainda enfrenta estigmas causados pelos longos séculos de opressão do branco, ainda que a voz de quem fala/escreve seja negra.

Porém, na literatura contemporânea, é possível encontrar narrativas que buscam quebrar esse estereótipo apresentado temas como escravidão e outros tópicos de maneira positiva, abandonando, de vez, a figura do negro “vitimizado”. Para Paz (1982), são as vozes que buscam “libertar-se do peso da história”.

III.I A apropriação da língua como forma de resistência

A linguagem literária e sua capacidade conscientizadora podem contribuir para a vivência, mesmo que fictícia. Os livros abrem portas para um grande número de questões que permeiam e embasam debates e discussões sobre etnias, gêneros, divisões de classe, dentre tantos outros temas considerados polêmicos na atualidade.

Preencher a lacuna na literatura brasileira mostrando a escravidão do ponto de vista de quem é vítima de preconceito traz para debate outras percepções acerca da questão racial. Segundo Hooks (2013), a língua padrão esconde os ruídos da matança e da conquista – fato comum tanto para os índios no continente americano quanto para a população negra escravizada que foi retirada à força das terras africanas centenas de anos atrás. Para a autora, a língua utilizada por negros e negras é uma espécie de “contra língua” pois utiliza uma fala quebrada, fragmentada, como uma forma de resistência e reinvenção para além das fronteiras de dominação às quais esses indivíduos foram sujeitos. O uso da língua seria, portanto, um tipo de apropriação matriz para rebelião e resistência – que muito lembra certa frase de Debus (2012): “Numa

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