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POR UMA MATEMÁTICA INCLUSIVA: REFLEXÕES SOBRE O DESAFIO

Por:   •  30/6/2017  •  Artigo  •  2.879 Palavras (12 Páginas)  •  484 Visualizações

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Experimentação no Ensino de Ciências

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POR UMA MATEMÁTICA INCLUSIVA: REFLEXÕES SOBRE O DESAFIO

José Ricardo Ledur

Inês Bueno Krahe - Orientadora

Resumo

O presente artigo busca refletir sobre os caminhos que atualmente a Matemática vislumbra no contexto escolar e as possibilidades de sua ressignificação, de modo a possibilitar a ruptura de paradigmas que a colocam como uma das disciplinas que apresenta alguns dos piores desempenhos em termos de aprendizagem. As dificuldades que os alunos apresentam relativamente a esse campo do conhecimento humano têm origem em concepções que buscam reforçar determinadas representações sociais e reforçadas por alguns mitos que se tornaram “verdades” ao longo do tempo. Romper os elos dessa cadeia tem sido o objetivo de diversas tendências pedagógicas nestas últimas décadas. Apesar das dificuldades e da resistência à mudança, novas possibilidades avançam e permitem vislumbrar uma nova abordagem no ensino da matemática.

Palavras-chave: Matemática, Educação Matemática, Aprendizagem.

Introdução

A escola da modernidade é compreendida como um espaço de transmissão /construção de saberes. Entretanto, se voltarmos nossos olhares para essa instituição, podemos perceber que, sob certos aspectos, essa finalidade nem sempre vem sendo alcançada de forma positiva. Dificuldades de aprendizagem, fracasso escolar, repetência e evasão são alguns aspectos que impedem tornar a escola um espaço de significação do conhecimento. É, também, inserida em um contexto social que a escola servirá nas afirmações das desigualdades existentes na sociedade da qual ela faz parte. São as relações entre acesso e permanência, de milhares de alunos da educação básica brasileira, que permitem compreender a dinâmica entre exclusão e inclusão no interior da escola.

A escola como um todo e a sala de aula, de um modo mais específico, são espaços de microculturas que interagem diariamente, entrelaçadas por significados e vivências bastante particulares, tornando-se locais onde continuamente são construídas interações, saberes e conhecimentos que intervêm na vida de todos os integrantes dessa comunidade e que demonstram as representações sociais vigentes naquela cultura – ou, de forma mais específica, na cultura dominante. Essas relações estão fundamentadas em uma dinâmica de poder que, sob inúmeros aspectos, potencializa essas relações sociais. Segundo Dametto e Esquisani, esse poder é onipresente e

dentro dessa perspectiva, o poder não está presente em um único ponto,

em uma unidade. O poder é reticular e móvel, o poder está em toda a par-

te; não porque englobe tudo e sim porque provém de todos os lugares. O

poder não existe enquanto algo monolítico, mas em práticas ou relações

que se disseminam por todo corpo social. (DAMETTO, ESQUISANI, 2009,

pág.16)

Nesse contexto, a Matemática tem servido, de certa forma, como um instrumento de poder, segregando os “aptos” dos “inaptos”, conferindo aos primeiros uma aura de “iluminados” e detentores de conhecimento inacessível à maioria da população. Sob essa ótica, pode-se compreender a afirmação de DAMETTO E ESQUISAN (2009, p. 19)i, citando Foucault (1987, p. 30), de que o poder produz saber (e não simplesmente favorecendo-o porque o serve ou aplicando-o porque é útil”.

A Matemática está presente na vida cotidiana de todo cidadão mas apesar de permear todas as áreas do conhecimento, essa disciplina sempre foi encarada pela maioria dos estudantes ora como algo desinteressante, ora como algo extremamente complexo, difícil e cuja aprendizagem está fora do alcance de quase todos os estudantes. Assim, tendências pedagógicas mais atuais têm buscado enfocar a Matemática sob novos ângulos, enfatizando um ensino fundamentado na compreensão de como o aluno aprende, na aplicabilidade dos conhecimentos matemáticos e nas relações sociais que permeiam a aprendizagem. Como diz D’AMBROSIO (1998, p.26), o conhecimento produzido pela humanidade, independente da cultura e da época, “que é gerado pela necessidade de uma resposta a situações e problemas distintos, está subordinado a um contexto natural, social e cultural”.

Assim, neste artigo busca-se analisar as implicações da utilização da Matemática como forma de manutenção de um poder social que favorece a manutenção de um status de segregação, as formas – mitos criados – que buscam justificar esse status e algumas alternativas na busca de uma ressignificação do conhecimento matemático que possibilite torná-lo uma ferramenta de inclusão.

1. Matemática e Relações de Poder na Escola e na Sociedade

A Matemática alia a sua característica de atividade tipicamente humana uma singular imagem em relação à multiplicidade de povos e línguas, que sinalizam-na como um instrumento básico para a compreensão global do mundo ou até mesmo para uma possível comunicação interplanetária (em alguns projetos de “contatos extraterrestres” levadas a efeito por respeitáveis entidades científicas foi sugerida a utilização de símbolos geométricos em vez de expressões ou palavras). Porém, de acordo com MACHADO, até nisso a Matemática vive um paradoxo pois

É, no entanto, no mínimo curioso o fato de que as características supostamente universais do sistema simbólico que é a Matemática sugiram tão fortemente sua conveniência como instrumento de comunicação universal, enquanto simultaneamente ela segue sendo considerada, no senso comum, um assunto de natureza técnica, destinado à compreensão de poucos”. (MACHADO, 1993)

Essa constatação demonstra, de forma bastante elucidativa um dos aspectos contraditórios em que a Matemática encontra-se

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