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A IDENTIDADE SOCIOLINGUÍSTICA DAS TRAVESTIS DO MUNICÍPIO DE CACOAL

Por:   •  26/12/2018  •  2.848 Palavras (12 Páginas)  •  8 Visualizações

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Ao analisarmos uma sociedade extensa constituída por vários falantes, pode-se pensar em vários fatores sociais, como de inclusão, exclusão, estabilidade, ou de mobilidade, que são fatores que controlam a competência da fala de certa comunidade e que se usa na variação linguística. O linguista Marcos Bagno afirma que:

[...] a sociolinguística surgiu na década 60 nos Estados Unidos, graças, sobretudo aos trabalhos de William Labov, que veio mostrar que toda língua muda e varia, isto é, muda com tempo e varia no espaço, além de variar também de acordo com a situação social do falante. (2004, p. 43).

Deste modo, entende-se a sociolinguística como correlação entre formas linguísticas variantes, sendo, formas diferentes de dizer a mesma coisa com o mesmo valor da verdade, em determinados fatores sociais, seja a escolaridade, classe socioeconômica, etnia, cultura, sexo entre outros.

Fazendo uma suposição, pode-se, constatar necessariamente que algumas variantes tenham o mesmo significado e o mesmo valor de verdade. Porém, por outro lado, opostas na significação social e estilística, pois os falantes não aceitam á primeira vista o fato de que duas ou mais expressões distintas signifiquem exatamente o mesmo, o que leva os falantes na maioria das vezes a atribuir significados diferentes a mesma coisa, Tarallo diz que “[...] variantes linguísticas são, portanto, diversas maneiras de dizer a mesma coisa em um mesmo contexto, e com o mesmo valor de verdade”. (TARALLO, 2000, p. 8)

O que se pretende com este trabalho é a afirmação de um estudo sobre as travestis que compõem uma comunidade de fala e atribuem em seus discursos um sentido peculiar, um significado restrito que, quase sempre, é acessível, à frequentadores mais assíduos ou já conhecidos do mesmo espaço.

Bourdieu explica este fenômeno da seguinte forma “[...] a configuração travesti, com suas especificidades sóciofísico-culturais, é construída na fluidez de significados elaborados em suas práticas sociais, suas trocas sexuais, seu corpo e, como tentamos argumentar, na maneira que esses indivíduos utilizam a linguagem para fabricar seu repertório de identidades”. (BOURDIEU, 1986)

Para melhor compreensão das gírias, que é um dos pontos a ser tratado neste estudo, fundamenta-se em (PRETTI, 2003, p. 139-140) que “[...] devemos ter presente um fenômeno tipicamente sociolinguístico, que pode ser estudado sob duas perspectivas: a primeira, a da chamada gíria de grupo, isto é, a de um vocabulário de grupos sociais restritos, cujo comportamento se afasta da maioria, seja pelo inusitado, seja pelo conflito que estabelecem com a sociedade”.

Observamos que a segunda perspectiva é a gíria comum que segundo o mesmo autor “[...] gíria comum, é a que estuda a vulgarização do fenômeno, isto é, o momento em que, pelo contato dos grupos restritos com a sociedade, essa linguagem se divulga, torna-se conhecida, passa a fazer parte do vocabulário popular, perdendo sua identificação inicial”. (PRETTI, 2003, p. 139-140)

As gírias utilizadas pela comunidade de fala das travestis, geralmente, não são bem aceitas por muitos indivíduos no contexto social, visto que, enquanto signo de um grupo firma-se como um instrumento de defesa, na medida em que tudo o que é dito só pode ser entendido por aqueles que conhecem o sentido hermético, secreto e fechado atribuído pelos falantes do grupo, e de uso exclusivo da comunidade de fala.

Entretanto, vê-se, que as peculiaridades das palavras podem sofrer mudanças, já que, as expressões tornam-se conhecidas por muitos simpatizantes que estão direta ou indiretamente relacionados ao grupo, que transmitem essas informações para outros grupos, tornando-se assim a referida linguagem um código que não seja imutável. A esse percurso do signo de grupo no meio social, Preti (2003, p. 53-4) denomina “dinâmica lexical”.

Ao pesquisar sobre a linguagem das travestis, Silva declara que “[...] em geral, essa linguagem possui aspectos quase sempre de leveza e comicidade, semiliterário ou esnobe, com utilização, conforme se focalizam os homossexuais de categoria social mais baixa, de gíria de outros grupos marginais ou criminais, em razão do contato mais intenso com esses grupos.

Facilmente integrada, a gíria surge em cliques, em grupos em que há grande senso de camaradagem e solidariedade grupal fundamentada na similaridade de interesses.

Assim sendo, é necessário que se faça neste estudo uma possível relação entre as diferenças existentes tanto no vocabulário, como na semântica dos vocábulos presentes no léxico travesti, pois, assim como ocorrem as alterações e variações da língua comum, acredita-se, que também é possível que ocorram mudanças semânticas, morfológicas e até mesmo fonéticas nesta linguagem.

No entanto, Henriques destaca, para a afirmação do que foi exposto acima que: “[...] a fala humana não é uniforme mesmo no seio de uma única família: seus membros distinguem-se no seu modo de falar, de acordo com vários fatores como o sexo, a idade e a ocupação, entre outros”.

Dar-se-á relevância no estudo da identidade linguística das travestis, os neologismos construídos dentre o grupo, utilizados per esses indivíduos durante a comunicação que segundo Silva “Os homossexuais têm um imenso talento para criar gírias de vida, geralmente, muito limitada, e não é raro encontrá-las com significados apenas dentro de uma determinada clique ou de um reduzido grupo de pessoas”.

De acordo com o autor citado acima a sofisticação de atitudes e comportamentos, e mesmo a mímica, têm uma importância fundamental na comunicação e inclusão dos símbolos na sua linguagem. “Nas relações intragrupais, existe uma verdadeira competição na vivacidade de linguagem pelo pitoresco, pelo bizarro, ou pelo obsceno, que muito contribui dirigido pelo modismo, para o aparecimento e substituição contínua de novos termos.”

Como se observa este trabalho deverá dar conta de coletar, analisar e publicar um rol de palavras e expressões próprias do grupo pesquisado.

UM ESTUDO SOBRE AS GÍRIAS UTILIZADAS NO DISCURSO DAS TRAVESTIS.

A pesquisa foi realizada no local de trabalho das profissionais do sexo/ travestis de Cacoal, o grupo pesquisado possui aproximadamente nove integrantes que trabalham geralmente todos os dias da semana.

Estas profissionais dão início a seus serviços aproximadamente às 22:00 horas, num local denominado por elas e por seus frequentadores como “ponto” este local fica

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