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A Comparação entre Inês de Castro e Concubina Yang Yuhuan: da História à Literatura

Por:   •  26/12/2018  •  2.701 Palavras (11 Páginas)  •  9 Visualizações

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Agora voltemos à comparação entre as duas personagens históricas. Observando tudo o que acima se relata, é preciso ter em conta que a história é feita de muitos silêncios e não é tão objetiva quanto parece. Ou seja, só sabemos do passado aquilo que está escrito ou o que os cronistas permitem conhecer. Foi deste modo que a história se tornou em mistérios e mitos. Na minha opinião, a complexidade das suas histórias baseia-se nos dois aspetos seguintes:

Primeiro, sendo a mulher mais amada do rei/imperador, elas nunca chegaram a ser rainha/imperatriz. Acima de tudo, são as famílias poderosas atrás delas e os interesses estatais que estão em jogo. Se D. Inês foi expulsada da corte por ter filhos cuja existência pôs em causa a segurança de D. Fernando e do Estado, Concubina Yang nunca chegou a ser imperatriz provavelmente por não ter filhos. Ao longo da história chinesa, quase não há imperatriz sem filho (nem adoptado) por motivo de manter a estabilidade do poder imperial. Quer dizer, cabe ao imperador garantir que a imperatriz e a sua família não vão constituir ameaças potenciais para o futuro herdeiro da coroa. Se bem que a amasse tanto, o imperador nunca iria correr o risco de deixar a Família Yang controlar a corte após a sua morte. Mais que isto, os dois casamentos eram considerados desonrosos e incestos, e muitas vezes as restrições sociais pesam ainda mais do que o poder real/imperial.

Segundo, D. Inês e Concubina Yang foram ambas executadas pelo rei/imperador de maneira cruel, mas ambos foram compelidos a ordenar a execução. D. Afonso IV foi obrigado pelo interesse do Estado e pela decisão da corte enquanto Imperador Xuanzong foi forçado pela ameaça de morte. Tanto a vingança incansável de D. Pedro como as saudades e lágrimas de Imperador Xuanzong após a morte das suas amantes, interpretam perfeitamente o tema eterno da literatura: o amor e o sofrimento. Será que não foram mortas? Será que existe um mundo sagrado em que os amantes pudessem viver juntos? Assim, de reescrita e reconstrução é que o mito do amor além da morte, do amor profano e sagrado, compõe um dos pontos que alimentam milhares de obras literárias e a imaginação do povo.

2. Evolução das Imagens Literárias

A história é utilizada de muitas formas e com diversos objectivos para alimentar mitos e criações literárias. Assim, deixemos procurar a verdade histórica, pois essa "verdade" muda sempre de acordo com o tempo e com a focagem que se constrói sobre ela. Logo, delineia-se a pergunta que foi abordada em diversas perspectivas ao longo dos séculos: qual será a relação entre o amor e a morte? Ou seja, como se explicará a ligação intrínseca entre a sua vida amorosa e o seu destino miserável? Cabe aos autores literários abordar o tema eterno de "amor e morte" com a reconstrução das histórias de D. Inês e Concubina Yang.

É evidente que o foco da história de D. Inês sofreu várias mudanças: primeiramente, nas crónicas de Fernão Lopes, ele levanta dúvidas sobre a legitimidade do seu casamento e a dos seus filhos pela necessidade de legitimar juridicamente a nova dinastia, com destaque para o conflito entre o amor e o casamanto; já no Renascimento, Inês de Castro passa a ser uma heroína do amor e afasta-se das questões do casamento: nas Trovas à Morte de Inês de Castro, Garcia de Resende ainda relata a sua relação amorosa de uma forma ambígua (conheceu-me, conheci-o) mas ao mesmo tempo constrói uma imagem trágica e corajosa, isenta de toda a culpa pela sua morte; no entanto, é com Os Lusíadas que se constrói a imagem mais clássica e romântica de Inês de Castro, com mais destaque para a descrição do amor mítico e espiritualizado. Desde então, mais do que uma personagem histórica, Inês de Castro passa a ser um símbolo do amor inocente, infeliz e sagrado.

Se, no caso de Inês de Castro e D. Pedro, o conflito principal está entre o amor e o casamento, o afeto anormal de Imperador Xuanzong por Concubina Yang constitui uma justificação perfeita para a queda da Dinastia Tang nas obras literárias. Em chinês, a palavra "Tian Zi (imperador)" significa "filho do céu" e o imperador chama-se a si próprio "Gua Ren", que significa "homem solitário". Quer dizer, um bom imperador não se deve associar com grande amor, mesmo que tenha uma imperatriz e centenas de concubinas imperiais, cuja única função é prosperar a família imperial. Vice-versa, um imperador que mostra demasiado favor por uma mulher certamente não vai ser um bom governador. Numa palavra, um bom imperador e um bom amante são incompatíveis. Imperador Xuanzong, cujo reinado de 44 anos (712-756) foi o mais longo durante a Dinastia Tang, era um governante sábio e de grande prestígio durante a primeira metade do seu reinado. A era de Kaiyuan (713-741) de Imperador Xuanzong é vista geralmente como uma das épocas douradas da história chinesa - um período de estabilidade política e de prosperidade econômica, além dos avanços na instrução, na literatura, na música, na pintura e na religião. No entanto, o imperador foi culpado por confiar demais em Yang Guozhong (primo de Concubina Yang) e An Lushan (líder da Rebelião Anshi) durante os últimos anos do reinado, o que fez com que a Dinastia Tang entrasse subitamente em declínio.

Consequentemente, a elite que vivia na segunda metade da Dinastia Tang nutre tal ressentimentos contra Concubina Yang. O aparecimento dela parece ser a única explicação pela mudança do imperador. "A beleza é a raiz do mal" tem sido sempre a desculpa dos homens para cobrir os seus erros ao longo da história chinesa. As belas mulheres tornaram-se muitas vezes o bode expiatório para a tolice de um imperador e até mesmo a queda de uma dinastia. Por exemplo, nas Trovas à Dor Eterna, de Bai Juyi, um dos grandes poetas da Dinastia Tang, o poeta descreve com detalhes a beleza da concubina e o favor por parte do imperador. "As noites que passou com a concubina eram tão curtas. A partir daí o imperador não assistiria mais às sessões ordinárias de manhã". O poeta critica então a incompetência do imperador por insinuação. No entanto, destaca-se que o poeta também mostra bastante simpatia pelo casal e elogia altamente o amor entre eles, o que tornou o poema numa das obras mais notáveis que descrevem o amor. "Que sejamos pássaros voando lado a lado no céu e árvores com ramos entrelaçados na terra" "Um dia, o céu e a terra irão desaparecer, mas esta dor nunca chegará ao fim", lamentou Bai Juyi no final do seu poema. Posteriormente numa prosa Biografia das Trovas à Dor Eterna, o autor Chenhong relatou mais detalhes históricos,

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